Tirando a epopéia que se tornou a Copa de 1950 aos brasileiros, a Copa de 1954 talvez tenha sido a primeira que representou a derrota de um verdadeiro futebol-arte. "Nós jogamos alegremente, eles jogaram para ser campeões", disse Puskas, craque do Mundial, do Honved, da Hungria e do Real Madri após perder para a Alemanha na final: 3 a 2.
O treinador da maior Holanda de todos os tempos, a vice-campeã de 1974, ficou encantando com a seleção brasileira que conquistou o tricampeonato mundial na Copa de 70, quando o técnico Zagallo escalou cinco camisas 10 no ataque: Gérson, um dos maiores lançadores da história do futebol, Jairzinho, único jogador brasileiro a marcar gols em todos os jogos de uma Copa, Pelé, Ele, Tostão, doutor e gênio, e Rivellino, simplesmente o ídolo de Maradona; sendo que Pelé, claro, seguiu com a 10, e muitos não acreditavam que Tostão, vraque que criou a jogada do gol diante da Inglaterra, poderia caber nesse time.
"É impossível ver Pelé e Tostão no mesmo time. eles são incompatíveis taticamente", profetizou Zagallo dois meses antes do embarque ao México. "Não vai dar certo escalar Pelé, Tostão e Rivellino num mesmo time", falou Zagallo, um mês e meio antes, errando de novo. "Em um mês eu não vou aprender a jogar na ponta-esquerda", afirmou Rivellino, repetindo a previsão errada. "Podem me criticar. Mas seria um suicídio se eu viesse jogando aberto e franco para a Copa do Mundo. Não dá mais para jogar no 4-2-4", finalizou Zagallo, dias antes da estréia, com a exata tática citada.
Naquela Copa, na Alemanha, em que a anfitriã comandada pelo kaiser Beckenbauer saiu com o caneco, Rinus Michels era o técnico da Holanda. Entusiasmado com quem brilhara uma Copa antes, Felix, Carlos Alberto, Brito, Piazza, Everaldo, Clodoaldo e os cinco já citados, criou o Carrossel Holandês, dizendo que, para imitar o Brasil, só se os jogadores conseguissem acumular funções dentro de campo. O que se viu foi um time dinâmico e inovador, onde realmente os atletas - o maior deles Cruyff, atleta que praticamente atuou em todas as posições, menos o gol, não tinham posição fixa. Um dia Cruyff virou técnico:
"Se eu ganho um jogo como treinador apenas jogando para ganhar, só os torcedores do meu time vão gostar. Eu não vou acrescentar nada ao jogo", disse já na década de 90. "Podemos fazer um suco dessa imensa laranja", arriscou Zagallo antes de Brasil 0 x 2 Holanda. "Desejo que os técnicos vejam como a Holanda joga e façam seus times usarem essa fórmula", arrumou depois.
Aquela Holanda incrível parou na Alemanha mecânica, depois na Argentina em 78. E o futebol-arte parou em Paolo Rossi.
Em 1982, vejamos o tamanho do talento brasileiro: o Flamengo vencera o Mundial Interclubes 1981 batendo o Liverpool por 3 a 0 no Japão. 3 a 0. Nada de retranca com gol de Gabiru ou Mineiro. 3 a 0 no primeiro tempo, um show. Na Copa, 2 a 1 na URSS, 4 a 1 na Escócia, 4 a 0 na Nova Zelândia, 3 a 1 na Argentina e a derrota por 3 a 2 para a Itália. Ali nasceu no Brasil um sentimento de que talvez o bonito não basta para ganhar.
E então, em 90, o Brasil vai à Copa com três zagueiros e Dunga de volante (nada contra o esquema - pelo contrário, muitas vezes o 3-5-2, com bons jogadores no meio e laterais rápidos, é muito mais ofensivo que qualquer outro esquema). Em 94 então, Parreira, preparador físico naquele Brasil dos cinco camisas 10, armou um time com Dunga, Mauro Silva, Mazinho e Zinho para Romário brilhar e trazer o caneco de volta depois de tanto tempo.
"No meu tempo, o goleiro era o primeiro atacante. Hoje, o centroavante é o primeiro zagueiro", comentou Michel Platini já nos anos 2000.
Então em 94, morreram os últimos grandes gênios: Stoichkov, da Búlgaria, Hagi, da Romênia, Maradona, da Argentina... Tá, Zidane e Rivaldo vieram depois, mas já num futebol, digamos, moderno. E a partir de então, passa-se a questionar times que jogam bem, de maneira bonita e ofensivamente. E, às vezes, não transformam isso em gols e títulos.
"Em agosto, ninguém mais falará da Copa. Não tivemos estrelas de verdade. A Alemanha tinha uma equipe muito boa. O Brasil não era uma boa equipe. Simplesmente se aproveitava dos erros dos adversários. Este time não entrará para a posteridade porque tinha medo dos alemães. Infelizmente, o Brasil deu ao mundo um exemplo de antifutebol", disse o mesmo Cruyff após o time de Felipão vencer o Mundial 2002.
Aí fica a questão: Cruyff ou Parreira? Puskas ou Alemanha?
E então chega ao técnico Marcelo Japonês, do time de futebol de campo da AAA de Comunicação da Metodista, que o time tem 'jogado bem e bonito demais, mas isso não serve para futebol universitário".
"Dane-se", respondeu.
Não serve para um time de brucutus. Não serve para quem vê futebol como um jogo sem meio-campo, onde beques lançam atacantes que correm tanto quanto não pensam. Não serve para defensores do futebol três pontos. Não da arte do jogo.
E então Marcelo dá um ponto ao futebol. Mais que qualquer três pontos que a Metodista pode somar na Liga ou que uma classificação num mata-mata de JUCA. Um ponto à Rinus Michels, ao 4-2-4. Aos jogos que encantam os torcedores, não amenizam as dores dos que vencem ou empatam com o sentimento de deixar de perder.
Laranja, tal como o escrete de Cruyff, a Metodista.
Incrível, tal como a Copa, o JUCA.
Joguem futebol que o final sempre será feliz.
Monday, March 30, 2009
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